Desigualdade no Pré-Natal: Mulheres Indígenas e Menos Escolarizadas em Situação Crítica

Um estudo recente revela que, apesar de quase todas as grávidas no Brasil realizarem pelo menos uma consulta de pré-natal, o acesso a esse serviço essencial diminui significativamente para mulheres indígenas e aquelas com baixa escolaridade. A pesquisa, realizada pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) em parceria com a organização Umane, destaca as disparidades que afetam o atendimento pré-natal no país.
Cobertura Pré-Natal e Desigualdade Regional
Dados indicam que a cobertura de pré-natal varia consideravelmente ao longo da gestação. Enquanto a taxa inicial de consultas é de 99,4%, este número cai para 78,1% entre a sétima consulta. O ideal é que o acompanhamento comece assim que a gravidez é confirmada, preferencialmente antes da 12ª semana gestacional. As diferenças regionais também são alarmantes, com apenas 63,3% das gestantes na Região Norte conseguindo acesso completo ao pré-natal, em comparação com 85% na Região Sul.
Impacto da Escolaridade e Etnia no Acesso ao Pré-Natal
O estudo revela que a escolaridade é um fator determinante no acesso ao pré-natal. Gestantes com maior nível educacional completam 86,5% do pacote de consultas, enquanto aquelas com menor escolaridade atingem apenas 44,2%. Entre as mulheres indígenas, apenas 19% conseguem seguir todas as recomendações de consultas, um contraste chocante em relação aos 88,7% das mulheres brancas com 12 anos ou mais de escolaridade.
Desigualdade Étnica no Acompanhamento Gestacional
As mães indígenas enfrentam uma exclusão ainda mais acentuada, com apenas 51,5% completando o acompanhamento pré-natal, em comparação com 84,3% das brancas. A diferença é notável entre os grupos étnicos, com o abandono do pré-natal entre indígenas atingindo 46,2%, três vezes mais que as mulheres brancas, que apresentam uma taxa de 15,3%. Este cenário evidencia os desafios enfrentados por estas mulheres em um sistema que deveria ser universal.
A Necessidade de Políticas Específicas
Os pesquisadores recomendam a implementação de políticas direcionadas para gestantes adolescentes, que têm uma cobertura ainda mais baixa de pré-natal, com apenas 67,7% recebendo o atendimento adequado. Esta taxa contrasta com os 82,6% de mulheres acima de 35 anos. O estudo se baseou em mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados em 2023 pelo Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos.
Recomendações para Melhoria do Acesso
Luiza Eunice, a pesquisadora responsável pelo estudo, enfatiza a importância de criar vínculos entre gestantes e profissionais de saúde, além de garantir acessibilidade, como transporte público adequado. A conexão ativa com essas mulheres é fundamental para que consigam retornar às consultas e garantir a saúde tanto sua quanto de seus bebês.
A Importância do Envolvimento do Poder Público
Evelyn Santos, gerente de Investimento e Impacto Social da Umane, ressalta que, embora haja avanços na atenção primária, ainda é necessário um maior esforço do governo para atender as demandas de saúde de todas as mulheres, independentemente de fatores como etnia, escolaridade ou localização geográfica. A igualdade no acesso ao pré-natal é crucial para a redução da mortalidade materna e para a promoção de uma saúde mais equitativa.
Conclusão
A pesquisa evidencia a necessidade urgente de ações que garantam acesso igualitário ao pré-natal, especialmente para grupos vulneráveis como indígenas e mulheres com baixa escolaridade. A implementação de políticas públicas eficazes e a promoção de um sistema de saúde mais inclusivo são passos fundamentais para assegurar que todas as gestantes possam receber o cuidado adequado durante a gravidez.





